segunda-feira, 17 de maio de 2010

Virada Cultural: tô fora.

Palco do rock as 15h30: apresentação de Arnaldo Antunes e banda (incluindo a genialidade de Edgard Scandurra). Uma hora depois seria a vez dos Titãs ocuparem o palco. Local: avenida São João, centríssimo da cidade de São Paulo.

Para uma cidadã paulistana sem vícios e sem a menor pretensão de incomodar qualquer forma de vida, um texto opinativo a respeito desses shows resume-se em palavras centrais: mau cheiro, imundície, falta de educação, embriaguez insuportável, tumulto.

A experiência foi, até hoje, o melhor exemplo da frase "estar no lugar errado, na hora errada". A confirmação mais inteligente de que, para poder depreciar ou enaltecer alguma coisa, é preciso experimentar. Experimentei. E, para a ala do rock, não volto mais.

Pontuando problemas, é fácil chegar à conclusão de que a presença dos consagrados artistas não compensa o caos instalado no local. Evento gratuito não parece dar muito certo em selva de pedras. Primeiro: policiamento deficitário. Pelo trecho (grande) por onde passei, vi dois policiais. Quatro milhões de pessoas, todo tipo de drogas. Cerca de 4.300 policiais dariam conta dessa mistura assustadora?

Segundo: venda desenfreada de álcool. O desplante numa caixa de isopor que dançava sobre as cabeças "PROIBIDA A VENDA BEBIDAS ALCOÓLICAS PARA MENORES DE 18 ANOS". Um vendedor ambulante, vendendo desde cerveja até conhaque, escreve a lei na caixa e deixa morrendo de vergonha as criaturas que não deveriam estar ali. As criaturas que, como eu, não tinham a atenção voltada para o palco, mas para essas e outras cenas horríveis, ridículas, asquerosas. Adolescentes e adultos, dos 12 aos 60 anos, com olhos virados ou com olhar parado, encostados em portas ou caídos no chão, simplesmente por beber demais misturas vendidas ou preparadas por eles mesmos.

Terceiro: consumo desenfreado de álcool (e muito mais drogas possíveis e imagináveis). Babaquinhas de todas as idades acendendo baseados, tragando até eu mesma, só de olhar, ficar sem ar; babaquinhas de ambos sexos misturando ceveja, energéticos, vinhos, destilados em geral, maconha, cocaína. Babaquinhas de todas as cores, idades e ambos sexos tomando comprimidos com vodca pra ficarem ligados o máximo de tempo possível, num culto ao baixo padrão de decência. Babaquinhas como uma por quem meus olhos passaram na saída de todo aquele tumulto: bem vestida, bonita, jovem e caída no colo de outra babaquinha, em coma alcoólico. Babaquinhas, que desconhecem a passagem dos anos e vivem o hoje como se o corpo fosse a armadura do Homem de Ferro. Babaquinhas decadentes, sem noção e que não merecem a máquina perfeita que é o seu corpo; que provam, com suas atitudes esdrúxulas, o quando a vida é injusta em relação à saúde de um ou de outro.

Quarto: sujeira. Não houve chuva na sexta nem no sábado, talvez uma garôa leve. Mas o chão da avenida São João era uma pasta, um lamaçal preto. Uma mistura de bebidas derramadas, urina, vômito. Havia também tapumes caídos, que dificultavam ainda mais a passagem e traziam risco de ferimentos graves a quem passasse sem cuidado. Chapas de metal soltas pelo chão, sujas, podres, enlameadas. Impossível fazer um movimento com o pé sem pisar ou chutar uma garrafa ou lata. Uma vendedora de yakissoba passa com seu carrinho por mim e pega, do chão, um elástico de amarrar dinheiro e guarda no bolso. Onde ela usaria aquilo? E quem comprasse seu produto, estaria preocupado com a procedência de algum ingrediente?

Quinto: vandalismo. Telefones públicos e pontos de ônibus pichados, portas de estabelecimentos destruídas, paralelepípedos arrancados, árvores detonadas. Atos propriamente humanos, de quem não aprendeu nem nunca aprenderá a viver civilizadamente. Atos de gente burra, que destrói a coices o que foi pago com seu próprio dinheiro.

Sexto: violência. Durante os shows, vários vãos se abrem na multidão, dando espaço a brigas, chutes, cotoveladas. Pessoas cantando os sucessos e sendo empurradas. Garrafas de vidro e plástico voando vazias sobre as cabeças: onde cair, caiu. Afinal, quem está ali sabe o risco que corre em qualquer circustância. Risco de sair com uma perna quebrada, com o rosto cortado, com uma fratura exposta. "Estava 'curtindo' lá na Virada Cultural, fumando baseado e chutando as pessoas e levei uma garrafada no rosto. Tadinho de mim".

Evento organizado meses antes por uma equipe responsável e preparada. Uma equipe, porém, que parece viver num plano superior onde pessoas aglomeradas não é sinônimo de maloca e zona. O bolo em comemoração aos aniversários de São Paulo foi banido sabiamente pelo prefeito e já não se passa vergonha assistindo televisão todo dia 25 de janeiro. Não seria a hora de rever o que é, realmente, cultura para massas inconsequentes? Esse envento, que movimenta e investe tanto dinheiro, estará mesmo levando o nome certo? Cultura? Cultura a quê? A tudo o que se pede para não ser feito?

Um comentário:

  1. Considerando a observação assaz conduntente e certeira, só lamento que no próximo ano provavelmente esse cenário repita-se com seus personagens mais ridículos - enquanto alguns apreciadores da arte e da cultura precisarão pagar caro para assistirem a um espetáculo em segurança e longe da imundície, que prova ser cada vez mais urbana. Civilização? Ainda não.

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