segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Horário Eleitoral Gratuito

Esta certamente será a pior eleição da história da democracia, no tocante à ética, bom senso e respeito com o eleitorado imbecil. Não apenas pelos motivos óbvios de promessas deliciosas e impossíveis de serem cumpridas. Não apenas também pelo papel ridículo ao qual se sujeitam dezenas de candidatos, lendo grosseiramente um texto em cima da câmera e não se dando ao trabalho sequer de decorar seu número. Não, não é só por isso que essa será a mais triste eleição na história sofrida da democracia brasileira.

Colunistas de peso escrevem diariamente seus pontos de vista inteligentes a respeito da vergonha que é assistir os candidatos na televisão. Parece-me que eles não se surpreendem mais e este é o meu sonho de cidadã: acostumar-me com as discrepâncias que esbarram comigo todos os dias. Infelizmente ainda não me acostumei.

Não enxergo a natural graça do personagem Tiririca como candidato a deputado federal. Nos programas humorísticos a simples presença dessa figura já basta. O grande problema é ele usar seus trejeitos circenses numa campanha que deveria ser séria e ética. Causa ganas de vomitar seu vocabulário chulo e infantil, os tiques nervosos, o sorriso, o figurino. Pior do que está fica sim, Tiririca. Experimente colocar um bode numa casa sem água e com 20 pessoas. Fique uma semana com o bode. Livre-se dele após esse tempo e tudo vai ser uma maravilha, mesmo com tanta gente e sem água. Sua presença no horário eleitoral se assemelha ao bode.

Músicos com talento duvidosos também se candidatam a cargos de deputados. Usam discursos bonitinhos e que agradam ao povo nada esclarecido. “A família é a célula-mãe da sociedade”. Muito interessante e curioso. Até o povo nada esclarecido uma hora cansa das músicas bobas e dos shows repetitivos. Entrar para a vida política é realmente uma maneira fácil e tranqüila de ganhar dinheiro sem fazer semelhantemente nada.

Mulheres vulgares também fazem do horário eleitoral um circo dos horrores lastimável. Uma solta que “jovem vota em jovem”, declarando que nunca vai envelhecer (ou, pior ainda, amadurecer) ou que esta será sua única participação no universo eleitoral, pois quando começar a passar do ponto terá que saltar fora. Jovem vota em jovem e termina de ferrar com tudo, com o pouco que ainda funciona capengando. Jovem vota em jovem e o eleitor pergunta à deputada “quem foi Pedro Álvares Cabral?” e o silêncio constrangedor é o comentário que se faz à frase infeliz lançada em campanha. Jovem vota em jovem e está liberado o disparate de ideologias pobres e sem fundamento: negro vota em negro, idoso vota em idoso, professor vota em professor e daí por diante. “Jovem vota em jovem” é o cúmulo da falta de argumentos.

Outra candidata, que parece ter parado no tempo, tenta fazer jogada sensual com seu número de campanha. Feia. Atitude feia, pessoa feia, frase feia. Todo o acúmulo de feiúras numa pessoa só, que tem o direito de tentar entrar para a rima “bandalheira brasileira”. Tem todo o direito, pois vivemos num país livre, laico e afogado nas piores baixarias que toda essa liberdade traz.

Professores que se imaginam revolucionando o mundo também estão na festa, inclusive distribuindo jornais meramente ilustrativos. Professores de escolas públicas que não se dão ao trabalho de revisar um jornal tablóide, com textos infestados de erros de concordância, pontuação, acentuação. Distribuem e só,afinal, seus alunos não vão mesmo perceber o desrespeito com o idioma. Antes disso, porém, fazem inferno em frente às Câmaras Municipais, tentando afetar vereadores e deputados dos quais, se eleito, será amigo.

Há ainda a campanha do Governo para que seu voto, meu caro amigo, não seja em vão, nulo, branco etc. Uma mobilização gigantesca enche de comerciais engraçadinhos o intervalo comercial das programações: “você pode escolher entre isto e aquilo outro”, “pode escolher entre ficar parado e fazer a diferença”. Brilhante! Emocionante! Eu posso sim escolher entre tudo isso, obviamente, na minha vida pessoal, profissional, amorosa ou qualquer outro aspecto. Exceto o democrático. Sozinha, não posso eleger quem respira o bom senso e a dignidade. Meu voto não vai tornar deputado, senador, governador ou presidente aqueles a quem admiro e que me respeitam como cidadã, como profissional, como mãe de família. Minhas escolhas na urna eleitoral não farão diferença. Se a diferença de intenção de votos for muito grande entre os dois primeiros candidatos, meu voto não fará a mínima diferença. Se estiver acirrada, voto a voto, talvez sirva para desempate. É isso. Por que, então, essa mobilização tão triste? Se o trigo está tão longe de tomar conta das necessidades da população, por que o incentivo a acirrar a briga do joio? Por que garimpar uma plantação de maçãs podres para tirar de lá as que ainda se salvam?

2 comentários:

  1. Está aí alguém com senso, adorei seu texto Raquel, sei que como você tem mais pessoas que pensam assim, o melhor é que se algo nesse "Espetáculo Político" der errado, o culpado - se é que existe algum - não foi você, nem eu... e sim àqueles que por acharem engraçado, linda, verdadeiro, inteligente algum desses "candidatos-palhaços". Isso realmente é lastimável num país como o nosso ver esses casos ridículos na Política, que DEVERIA ser levada à serio, enfim, continue assim Raquel, essa pessoa com essência no que escreve, no que pensa, no que defende.

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  2. 3 años de soledad!Seus textos como sempre estão brilhantes.Cada vez que visito o blog tenho mais saudade.

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