Situação atípica na linha lilás mostra que é possível rir e tirar alguma lição divertida, mesmo para cidadãos estafados
Eis que na estação Giovani Gronchi, da linha 5 do Metrô (Capão Redondo-Largo Treze), faltou energia as 16h do dia 30 de novembro, durante um forte temporal na região. Para sorte dos claustrofóbicos, o trem ficou parado com as portas abertas - em outro trecho provavelmente as portas não abririam, mesmo com o acionamento dos dispositivos internos. Passados alguns segundos, as primeiras mensagens sonoras começaram a ser disparadas: a circulação estava temporariamente suspensa. Em seguida, novas mensagens acalentaram os corações aflitos e os bolsos e bilhetes únicos vazios: os trens haviam voltado a circular, com velocidade reduzida e maior tempo de parada nas estações.
Quem esperava o prosseguimento da viagem dentro do vagão viu um funcionário do Metrô entrar e pedir que todos se dirigissem à outra plataforma, pois enquanto a situação não fosse normalizada, os trens circulariam por um trilho apenas. E nessa plataforma vizinha o caos já estava parcialmente instalado. A aglomeração gerava um barulho uniforme e incompreensível. A graça começou quando a voz do além disse, antes de maiores frustrações: “Atenção! O próximo trem a parar nesta estação seguirá com destino ao CAPÃO REDONDO”, quando deveria ir para o Largo Treze. Um coral sem ensaio, mas perfeito, entoou primeiramente o lamento “aaahhh”, seguido por palavrões clássicos. Ainda assim era possível ver dezenas, se não centenas de sorrisos mais ou menos desesperados.
O trem aproximou-se e dentro dele um número três vezes maior do que a capacidade máxima de pessoas as deixava completamente amassadas, ao estilo Mr. Bean. Essa locomotiva pararia para desembarque e também embarque, este último seria inconcebível, não estivéssemos no país do “não desisto nunca”, o que sempre me cheirou a frustrações imensas. Tentar incontáveis vezes e falhar, não concluir sonhos e ainda ter orgulho disso não deveria ser jargão de nação ou país.
Enfim, as portas se abriram e começou o desembarque. Quem saiu, saiu; caso contrário, foi empurrado pela onda de pessoas que entraram, pedindo desculpas e disputando ainda mais aquele ar já viciado por completo. Se coubessem confortavelmente 100, ali haveria 400, sem a menor dúvida. A viagem prosseguiu aos trancos e barrancos. Uma dessas figuras naturalmente engraçadas, que abrem a boca e soltam piadas toscas e divertidíssimas, estava no meio de dezenas de pessoas mais altas, o que não permitia ver seu rosto. Só se escutava a voz: “Gente, todo mundo de braço abaixado, pelo amor de Deus”. Risadas. “Nunca senti cheiro de sovaco e não é hoje que quero isso, depois desse calorão”. Gargalhadas. Alguém comentou “Nossa, vou descer na Vila das Belezas e esperar o próximo, este não dá”, ao que foi respondido “Mas este é o último, amigo! O próximo só amanhã!”. Mais risadas. Percebia-se o cansaço de todos: do piadista, do zoado, do povo inteiro. Até as risadas eram cansadas. Mas era, de algum jeito, divertido estar ali por cinco minutos. Na estação Campo Limpo, o gozador começa a falar “No próximo eu desço, gente! Preciso descer no próximo!”.
Na estação terminal, pessoas desciam a escada rolante em funis, e pareciam treinadas para passar em vãos de ampulhetas. Um colega comenta com outro: “o cabra que se aposenta e continua num lugar destes é doido”. Tive que olhar para trás, sorrir e concordar.
Um homem bem humorado transformou uma situação caótica em instantes de risadas, talvez mais valiosos do que as manjadas e cansativas comédias “stand up” que resistem, que não se cansam de si mesmas. Um amontoado de pessoas suadas, estressadas – e mal remuneradas em sua maioria – conseguiu manter a peteca no alto e não ceder ao conflito de bate boca e lamentações que não aliviariam em nada. Um toque pequeno de bom humor salvou neurônios, preveniu gastrites, evitou uma série de desagrados. Salvou vidas, indiretamente, mas salvou. E eu estava lá pra conferir isso.

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