domingo, 5 de dezembro de 2010

Cruel, sim. Cruel.

Assistindo pela segunda vez o longa "O menino do pijama listrado" senti-me idêntica à mãe das duas crianças nazistas a respeito de uma situação ruim: saber dessa situação, condená-la e ficar inerte, feito uma ameba sem osmose.

O que me fez sentir assim foi um acontecimento cruel, rotina diária de um lar que frequento. No quintal, um dos mais degradantes objetos existentes na história da humanidade. Dentro do objeto, uma criatura indefesa, frágil, bela e alada. Trata-se, respectivamente, de uma gaiola e de um passarinho.

Uma gaiola velha, pequena e sinistra, além de triste, serve de "casinha" a um pássaro de penas negras e que um dia foram brilhantes. Esse animal definha a cada instante, fica parado, esperando as horas, os dias e a vida passarem sem a menor graça, esperança ou sentido. Patinhas paralisadas. Bico fechado. Olhar parado.

Percebe-se que a única pessoa a não se incomodar com semelhante selvageria é o "dono" do animal. Todo mundo em volta esbraveja, se entristece, faz cara de choro. E só. Ninguém, inclusive eu, tem o dom de tirar o animal de lá e levá-lo a um lugar aberto, onde possa morrer sozinho, de fome, talvez atacado por um bicho maior. Mas INEGAVELMENTE morrer com decência. A decência mínima da vida para os justos - morrer em liberdade, pois não cometeu e nunca cometeria nenhum crime.

Costume dantesco, ateu, nada cristão. Brincar de Deus não é coisa só de ex-presidente dos Estados Unidos. Apossar-se de um animal e prendê-lo numa jaula, mais gravemente ainda tendo ele asas, não pode ser atitude provinda de mente sã. Ouvir um pássaro preso cantar e não ouvir ao mesmo tempo o seu pedido de soltura é ser surdo. Surdo e doente mental.

Senti-me como aquela mãe mais-ou-menos-nazista do filme. Vejo o que está errado e não faço nada para mudar, a não ser repetir uma ladainha que já cansou inclusive a vítima. Recusei-me, porém, a chegar perto da gaiola até que o pássaro morra ou que alguma atitude seja tomada. Ficar olhando pra ele, lamentando sua sorte e condenando o que foi feito - apenas isso - não faz de mim uma pessoa justa. O certo seria abrir aquela prisão maldita, pegá-lo e sumir de lá com ele, mandando às favas tudo o que diriam a meu respeito.

O que me diferencia daquele animal é minha capacidade de raciocínio. Ter ele órgãos vitais, pele, sangue e tudo o que eu também tenho para viver faz de nós dois SEMELHANTES. Um pássaro, se raciocinasse, não prenderia um humano numa gaiola para vê-lo cantar ou fazer outra merda que o valha. Não tem graça. A vontade instrínsica de maltratar, existente nas cabeças humanóides, é o que mantém um pássaro numa gaiola. E a impotência de quem se incomoda é a mais triste das vergonhas. "Vamos celebrar a aberração de toda nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação", caro Renato Russo. Vamos celebrar sim, é o que resta fazer.

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