terça-feira, 21 de dezembro de 2010

De novo é natal

Sim, de novo. Calor sem fronteiras e inesgotável. Ar natalino que passa em frente ao nariz e por cima da cabeça. Cheiros e impressões únicas de final de ano. Perguntas, respostas e hábitos clássicos, batidos e ultrapassados, talvez.

Avenida Paulista na noite de 19 de dezembro estava com calçadas intransitáveis. Motivo? As luzes de natal mais papais noéis grandes e desengonçados ao longo da avenida, nas fachadas dos prédios, árvores, guias, tudo. Um papai Noel gigante empunhava um microfone, com postura incorreta. Dentro dele uma caixa de som produzindo jingles manjados. Papai Noel só mexia o lábio inferior, sem piscar, congelado e meio assustador. E todo mundo tirando fotos.

Estive lá com meu parceiro, homem da minha vida, que me presenteou um jantar romântico e uma aliança num restaurante lindo da Alameda Santos. Para voltarmos pra casa, só passando pela Paulista.

Um fato curioso e acalentador, embora estranho: uma menina de seus oito anos esperneava desesperada, o olhar transtornado, nos braços da avó, que queria fotografá-la ao lado do papai Noel cantor. A infeliz urrava de pânico e chegou a olhar no fundo dos meus olhos. Quis salvá-la, mas ela mesma conseguiu cair das garras da velha e se recusou a chegar perto do bom velhinho.

Interessante estar naquela aglomeração absurda. Muitas constatações. São Paulo é lugar onde talvez não caiba mais gente, mas é grande feito o coração de uma boa mãe. Paulistano é raça engraçada e que se diverte e distrai com qualquer coisa, além de não ver problema nenhum em estar em filas intermináveis em qualquer lugar, passar por pelo menos três catracas por dia, andar com passinhos curtos e pedindo desculpas pelos esbarrões. Acostumados também a viverem em questão de horas as quatro estações do ano. Gente boa, paulistano é da hora.

Claro que não nasci para estar em meio a tanta gente ao mesmo tempo. Jovem idosa, não acho saudável um montão de pessoas ao meu redor, respirando ar viciado, esfregando-se uma na outra para poderem entrar ou sair de um lugar. O caso é que natal é isso. O que deveria ser mero feriado é dinheiro que anda. Quem compra roupa pro natal compra também pro dia da bandeira? Ou pro feriado de Tiradentes? Todo esse clichê também é falta de opção. Pensar em hábitos novos é cansativo pra muita gente.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Cruel, sim. Cruel.

Assistindo pela segunda vez o longa "O menino do pijama listrado" senti-me idêntica à mãe das duas crianças nazistas a respeito de uma situação ruim: saber dessa situação, condená-la e ficar inerte, feito uma ameba sem osmose.

O que me fez sentir assim foi um acontecimento cruel, rotina diária de um lar que frequento. No quintal, um dos mais degradantes objetos existentes na história da humanidade. Dentro do objeto, uma criatura indefesa, frágil, bela e alada. Trata-se, respectivamente, de uma gaiola e de um passarinho.

Uma gaiola velha, pequena e sinistra, além de triste, serve de "casinha" a um pássaro de penas negras e que um dia foram brilhantes. Esse animal definha a cada instante, fica parado, esperando as horas, os dias e a vida passarem sem a menor graça, esperança ou sentido. Patinhas paralisadas. Bico fechado. Olhar parado.

Percebe-se que a única pessoa a não se incomodar com semelhante selvageria é o "dono" do animal. Todo mundo em volta esbraveja, se entristece, faz cara de choro. E só. Ninguém, inclusive eu, tem o dom de tirar o animal de lá e levá-lo a um lugar aberto, onde possa morrer sozinho, de fome, talvez atacado por um bicho maior. Mas INEGAVELMENTE morrer com decência. A decência mínima da vida para os justos - morrer em liberdade, pois não cometeu e nunca cometeria nenhum crime.

Costume dantesco, ateu, nada cristão. Brincar de Deus não é coisa só de ex-presidente dos Estados Unidos. Apossar-se de um animal e prendê-lo numa jaula, mais gravemente ainda tendo ele asas, não pode ser atitude provinda de mente sã. Ouvir um pássaro preso cantar e não ouvir ao mesmo tempo o seu pedido de soltura é ser surdo. Surdo e doente mental.

Senti-me como aquela mãe mais-ou-menos-nazista do filme. Vejo o que está errado e não faço nada para mudar, a não ser repetir uma ladainha que já cansou inclusive a vítima. Recusei-me, porém, a chegar perto da gaiola até que o pássaro morra ou que alguma atitude seja tomada. Ficar olhando pra ele, lamentando sua sorte e condenando o que foi feito - apenas isso - não faz de mim uma pessoa justa. O certo seria abrir aquela prisão maldita, pegá-lo e sumir de lá com ele, mandando às favas tudo o que diriam a meu respeito.

O que me diferencia daquele animal é minha capacidade de raciocínio. Ter ele órgãos vitais, pele, sangue e tudo o que eu também tenho para viver faz de nós dois SEMELHANTES. Um pássaro, se raciocinasse, não prenderia um humano numa gaiola para vê-lo cantar ou fazer outra merda que o valha. Não tem graça. A vontade instrínsica de maltratar, existente nas cabeças humanóides, é o que mantém um pássaro numa gaiola. E a impotência de quem se incomoda é a mais triste das vergonhas. "Vamos celebrar a aberração de toda nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação", caro Renato Russo. Vamos celebrar sim, é o que resta fazer.